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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Passagem

Uma turista foi à cidade do Cairo, no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio. A turista ficou surpresa ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.

- Onde estão seus móveis? - perguntou a turista.

E o sábio, bem depressa, perguntou também:

- E onde estão os seus?

- Os meus? - surpreendeu-se a turista. Mas eu estou aqui só de passagem!

- Eu também! - respondeu o sábio.


A vida na Terra é somente uma passagem. No
entanto, algumas pessoas vivem como se fossem
ficar aqui eternamente, e se esquecem de ser felizes.


Autoria desconhecida


English version

Passeio Socrático

Passeio Socrático

Por Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três ivrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na
virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.

A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor.. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno.... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: 'Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.'




Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de 'O desafio ético' (Garamond), entre outros livros.


English version

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

"Acreditar em algo traz esse algo para a realidade. O verdadeiro mágico é aquele que consegue resistir à tentação Egóica (do ego) de resistir à vida. Como resultado, ele se mantém conectado à sua própria divindade e consegue sentir o êxtase do Divino. O benefício em termos humanos é que quando nós não temos que lidar com o que a vida nos traz, nós nos libertamos para amar e viver de verdade. E fazer aquilo que você realmente ama é a origem de toda a abundância real e duradoura. Eu não sei explicar isso e nem me importa fazê-lo. A verdade é que é evidente que quando as pessoas confiam na vida o suficiente para conseguirem expressar suas verdadeiras naturezas e propósitos, todas as formas de riqueza passam a se manifestar em suas vidas. Isso é algo realmente inacreditável. Mas verdadeiro."


Desconheço a autoria


Original, in English: learntoforgive.com

terça-feira, 2 de setembro de 2008

"Quando você consegue parar e deixar que seu ser repouse, você se transforma em um canal para que algo indescritívelmente lindo e maravilhoso chegue ao mundo através de você. Esta é a verdadeira magia. É a sublime eternidade para a qual você desperta quando você começa a servir algo que é maior do que seu próprio desespero para sobreviver."


"When you stop and let your being come to rest, you become a channel for something indescribably beautiful and wondrous to come into the world through you. That’s what real magic is about. It’s about the sublime eternity you wake up in when you begin serving something bigger than your own desperation to survive."

William Whitecloud


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Não Estás Deprimido, Estás Distraído

Não Estás Deprimido, Estás Distraído

Por Facundo Cabral


Não estás deprimido, estás distraído…
Distraído em relação à vida que te preenche,
Distraído em relação à vida que te rodeia,
Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.

Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando existem cinco mil e seiscentos milhões no mundo.

Além de tudo, não é assim tão ruim viver só.

Eu fico bem, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me… o que é fundamental para viver.

Não faças o que fez teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria sem igual aos noventa, para citar apenas dois casos conhecidos.

Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será, e chegará de forma natural.

Não estás deprimido, estás distraído.


Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não és dono de coisa alguma.

Além disso, a vida não te tira coisas: te liberta de coisas… alivia-te para que possas voar mais alto, para que alcances a plenitude.

Do útero ao túmulo, vivemos numa escola; por isso, o que chamas de problemas são apenas lições.
Não perdeste coisa alguma: Aquele que morre apenas está adiantado em relação a nós, porque todos vamos na mesma direção. E não esqueças que o melhor dele, o amor, continua vivo em teu coração.
Não existe a morte... Apenas a mudança. E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, o Arcanjo Miguel, Whitman, Santo Agostinho, Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.

Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será, e chegará de forma natural.

Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor. Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.

Deus te tornou responsável por um ser humano, que és tu. Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo. E só então poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros.

Lembra-te : "Amarás ao próximo como a ti mesmo". Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que vês, é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição.

Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever; porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.

Um único homem que não possuiu talento ou valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.

Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo. Podemos experimentar a neve no inverno e as flores na primavera, o chocolate de Perusa, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e as poesias de Whitman; a música de Mahler, Mozart, Chopin, Beethoven; as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.

E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas:
se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas)...
Se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido... portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.


Não estás deprimido, estás desocupado.

Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança que será sócia do teu filho. Ajuda os velhos e os jovens te ajudarão quando for tua vez.

Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para aqueles que virão.

Dá sem medida, e receberás sem medida.

Ama até que te tornes o ser amado; mais ainda converte-te no próprio Amor.

O bem é maioria, mas não se percebe porque é silencioso.

Uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida. Vale a pena, não é mesmo?

Se Deus possuisse uma geladeira, teria a tua foto pregada nela.

Se ele possuisse uma carteira, tua foto estaria nela.

Ele te envia flores a cada primavera.

Ele te envia um amanhecer a cada manhã.

Cada vez que desejas falar, Ele te escuta. Ele poderia viver em qualquer ponto do Universo, mas escolheu o teu coração.

Encara, amigo, Deus ama muito você!






Photo by: Rebecca Cruz

sábado, 16 de agosto de 2008

A Suprema Sabedoria

Lilás - a cor da suprema sabedoria


A Suprema Sabedoria

Por Prem Rawat


Às vezes somos envolvidos por tudo o que está acontecendo no mundo e isso nos deixa incrivelmente confusos. As pessoas dizem: "É assim". Fala-se de Deus, da vida após a morte, da vida antes da vida.

A única coisa que é relevante é que estou vivo. Agora.

A vida tem a ver com o agora. Certa vez me disseram que fui um imperador na minha vida passada. E daí? Quando se vive a vida por meio de explicações talvez seja importante saber o que a gente era numa vida passada ou o que acontecerá depois desta vida. Mas, quando se vive entendendo o valor desta vida, todas essas coisas são irrelevantes. A única coisa que é relevante é que estou vivo. Agora.

Quando se vive de explicações só se cria uma coisa. Confusão. Quando se vive pelo valor de sua existência hoje o que se cria é clareza, simplicidade, gratidão, entendimento. Não especulação. Se você disser: "Explique por que meu pneu furou", certamente encontrará alguém para lhe explicar. Não há falta de explicadores.

Por quê? Porque na verdade não sabemos. É fácil dizer: "Sou José, ou Maria ou Patrick. Desculpe. Você não é isso. É outra coisa. É fácil dizer: "Minha mãe se chama isso, meu pai se chama aquilo". Mas somos mais do que isso. "Tenho diploma universitário. Sou formado. Sou doutor. Sou advogado. Sou isso. Sou aquilo. Não, você é mais do que isso também. "sou uma dona-de-casa". Não. É mais do que isso. "Sou mãe. Sou pai." Você é mais do que isso também.


Todas essas relações pelas quais você se orienta são relativas. Elas são e deixam de ser. Você está em processo de mudança. Embora não pareça. É preciso entender o que está mudando e o que não está. Neste rio da vida, você está num barco em movimento. Quando você olha para fora, parece que tudo o que você vê está se movendo. Não está. Está parado e continuará parado. Você é que está se movendo e não estará mais no mesmo lugar.

O que é perecível? O corpo em que você está é perecível. Um dia deixará de existir. O corpo
está em movimento. Você está em movimento. Desde quando? Desde que respirou pela primeira vez. Desde a primeira respiração. Coisa incrível! Antes disso era o éter. Então você respirou e o processo da vida começou a se desenrolar. Coisa poderosa. E veio outra respiração, e mais outra, e mais outra.

O desenrolar do mesmo processo que se dá com o universo é aquilo que veio a mim e me tocou, trazendo-me a dádiva da vida. Trazendo a mim todos os dias, todos os momentos, todas as estrelas. Isso é um milagre. Todo bebê que nasce é um milagre. Não entendemos isso, e é por isso que sofremos. Tendo tudo, achamos que não temos nada. Atormentados com nossos problemas, andamos aos tropeções pela vida.

No entanto, como é belo este momento. Não posso voltar para ontem, por mais que eu tente. E não importa quanto eu me esforce, não posso ir para amanhã. Para mim, essa é a suprema sabedoria. Estou aqui neste momento, e aqui tudo é maravilhoso.

Os jovens querem viver no futuro. Os mais velhos querem viver no passado. Ninguém quer viver no presente. E onde a alegria se colocou? Onde o entendimento se colocou? No presente.

Portanto, se alguma vez você se perguntar por que é tão difícil entender a vida, talvez a resposta seja: Você não vive onde a vida está. Você se acostumou com a confusão, e isso não é agradável.

O que se pode fazer? Aprender a viver no hoje. E o que é o hoje? Mais uma chance lhe foi dada de sentir plenamente o que é estar vivo. Espantoso. É o que vem ao caso em se tratando da vida.


Fonte:

terça-feira, 22 de julho de 2008

O Anel Perdido

Photo by DeviantArt



O Anel Perdido

Por Eckhart Tolle



Quando eu trabalhava como terapeuta e como professor espiritual, duas vezes por semana eu visitava uma senhora que sofria de câncer. Ela era uma professora de pouco mais de quarenta anos de idade, e que tinha recebido dos médicos poucos meses de vida. Às vezes nós conversávamos durante estas visitas. Mas, na maioria das vezes nós ficávamos em silêncio. E era durante estes períodos de silêncio que ela conseguia vislumbrar pela primeira vez a calma dentro dela mesma - algo que ela nunca percebeu antes, durante sua vida corrida de professora.

Certo dia, porém, eu cheguei à casa desta senhora e a encontrei em um estado de grande aflição e de raiva.

"O que houve?" - perguntei a ela. E ela então me disse que seu anel de brilhantes, que tinha grande valor monetário e também sentimental, tinha desaparecido. E ela estava certa de que quem havia roubado o anel tinha sido uma mulher que vinha à sua casa para cuidar dela por algumas horas todos os dias. Ela, continuando, disse que não conseguia entender como alguém pudesse ser tão sem coração a ponto de fazer algo odioso como roubar de uma mulher inválida e prestes a morrer.

A senhora, então, me perguntou o que eu achava e se eu achava que ela deveria falar com a empregada ou deveria antes chamar a polícia. Eu respondi que não podia dizer a ela o que fazer. Mas, mesmo assim, perguntei a ela o quão importante ela considerava um simples anel considerando tudo o que estava acontecendo com ela naquele momento.

"Você não está entendendo," ela disse. "O anel pertenceu à minha avó. Eu costumava usá-lo todos os dias, até que adoeci e minhas mãos incharam e ele não me servia mais. Era muito mais do que um simples anel para mim. Como eu poderia não estar aflita?"

A rapidez com a qual ela respondeu e a raiva e sua atitude defensiva eram sinal de que ela ainda não conseguia se ater apenas ao momento presente, conseguindo, assim, olhar para dentro de si mesma e separar a própria reação que teve ao evento (a perda do anel) do próprio evento e observar ambos de uma perspectiva mais tranqüila e serena.

Então, eu disse: "Eu vou fazer algumas perguntas a você. Mas ao invés de me responder em voz alta, quero que você tente encontrar as respostas dentro de você. Eu vou dar uma pequena pausa após cada pergunta. E quando uma resposta surgir em sua mente, pode ser que esta nem mesmo tome a forma de palavras."

Ela disse que estava pronta para começar. Eu perguntei: "Você sabe que vai ter que deixar o anel a qualquer momento, talvez dentro de muito breve. Então, quanto tempo você acha que precisa para se desligar por completo dele? Você vai deixar de ser quem é, vai se sentir diminuída de alguma forma se nunca mais voltar a ver o anel?" Houve uma pausa de alguns minutos após minha última pergunta.

Quando voltamos a conversar havia um sorriso no rosto da mulher, e ela parecia estar em paz.

"A sua última pergunta," disse ela, "me fez ver algo muito importante. Primeiro, consultei minha mente e minha mente disse 'Claro, claro que você se sentirá diminuída por tal perda.' Então, me fiz a pergunta novamente, 'Quem eu sou e tudo que sou ficará diminuído pela perda de meu anel?' Só que dessa vez eu tentei sentir ao invés de pensar na resposta. E, de repente, comecei a sentir quem eu realmente sou - meu espírito, minha essência. Eu nunca tinha sentido isso antes. Se eu posso sentir quem sou, então quem sou não será diminuído ou ferido. Nunca! E eu ainda sinto minha própria essência, serena e tranqüila, ao mesmo tempo que bem viva."

"Essa é a verdadeira alegria de viver," eu disse. "Você só vai conseguir experimentar essa sensação quando conseguir se desvencilhar de sua mente e de seus pensamentos. O "ser" deve ser sentido e não pensado. Ele não pode ser pensado. O ego não sabe da existência do "ser" porque o ego consiste de pensamentos e nada mais. O anel estava apenas em sua cabeça, enquanto você pensava nele, confundia-o com quem você é. Você pensava que o anel fazia parte do que você é - que parte de você se foi com o sumiço da jóia.

"Tudo aquilo que seu ego procura e aquilo que seu ego se prende são substitutos para o "Ser" que não consegue sentir. Você pode valorizar e cuidar de seus pertences, mas assim que você se ligar a estes, você pode ter certeza de que é seu ego falando - não você. E, na verdade, você nunca vai se sentir completamente ligada a alguma coisa. Você se sente ligada ao pensamento que transforma a tal coisa em parte do "Eu sou", do "Eu" ou do "Meu" que esta coisa representa para você. Assim que você aceitar uma perda, mas aceitá-la completamente, você terá vencido o ego. E quem você realmente é virá à tona - sua consciência emergirá."


"Agora," disse ela, "eu entendo algo que Jesus disse e que nunca fez muito sentido para mim antes. Ele disse que 'quando alguém roubar sua camisa, deixe que ele leve também seu casaco.'"

"Exatamente," eu completei. "É claro que isso não significa que você deva deixar as portas de sua casa destrancadas ou coisas do gênero. Mas a verdade é que quando algumas vezes aceitamos a perda de algo, nós estamos praticando algo infinitamente mais poderoso e positivo do que ficar 'chorando o leite derramado' e reclamando de nossa perda aos quatro ventos."


Nas últimas semanas da vida da mulher, ao passo que seu corpo se debilitava aos poucos, ela ficava cada dia mais radiante - como se uma luz brilhasse de dentro para fora de seu ser. Tanto, que ela deu muitas de suas coisas e bens pessoais para outras pessoas. Algumas destas coisas ela deu de presente à mesma mulher a quem ela tinha antes acusado de ter-lhe roubado o anel de família. E com cada presente que ela dava para alguém, sua alegria aumentava exponencialmente.

Quando sua mãe me telefonou para me avisar que ela tinha falecido, ela também mencionou o fato de que, após a morte da filha, haviam encontrado o anel de brilhantes no armário do banheiro da casa da falecida. A empregada devolveu o anel? Ou será que ele esteve ali o tempo todo? Ninguém jamais virá a saber a verdade.


Mas uma coisa sabemos com certeza: A vida lhe dá a experiência exata para que você evolua espiritualmente. E como você sabe que esta é a experiência que você precisa? Porque esta é a experiência que você está vivendo neste momento.

Então, quer dizer que é errado se orgulhar dos próprios bens materiais ou sentir inveja de pessoas que possuem mais que você? Claro que não. Esse orgulho, essa necessidade de se destacar perante os outros, esse aumento do que alguém é através de "ter mais que fulano ou sicrano" ou de "ter menos que fulano ou sicrano," estas coisas todas não são nem certas e nem erradas. Elas são o ego. E o ego não é errado - ele é apenas insconsciente. Assim que você começar a ser capaz de observar seu próprio ego, você estará começando a transpô-lo. Mas, não leve seu ego muito a sério. Sempre que você perceber que está agindo de acordo com seu ego, sorria. Muitas vezes você talvez até caia na gargalhada ao perceber as ações de seu ego. Normal. E você talvez se pergunte como foi que a Humanidade pôde ser subjugada por tal força inconsciente por tanto tempo?

Mas, acima de tudo, lembre-se sempre de que o ego não é algo pessoal. Ele não é quem você é de verdade. E se você acha que seu ego é parte de você e representa quem você é, tudo isso é, de novo, seu ego falando.


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Texto retirado do livro A NEW EARTH, de Eckhart Tolle
Traduzido por mim, Vivi Prado
A versão em português foi entitulada O DESPERTAR DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA




Foi um pouquinho trabalhoso traduzir esse texto de Eckhart Tolle. Mas sendo este livro algo que mudou minha vida (sem exageros!!), senti a necessidade de compartilhar com todos que passarem por aqui pelo menos um pouco das idéias simples e revolucionárias deste autor alemão.

Espero em breve trazer mais trechos do livro e colocar aqui.